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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
Por quase quatro meses, abrir o noticiário virou um exercício de fôlego curto. Bombardeios, ameaças de controle total, um estreito fechado, o preço do barril subindo a cada manchete. E então, num domingo, veio a frase que ninguém mais esperava ouvir, não pelo menos, sem se desconfiar: a guerra acabou. Estados Unidos e Irã anunciaram um acordo para encerrar, de forma imediata e permanente, os combates em todas as frentes. Depois de meses e de mais de trinta promessas furadas de que a paz estava perto, o anúncio trouxe algo inédito. Pois desta vez, os dois lados confirmaram.
Vale entender o que foi acertado, como se chegou até aqui e o que ainda pode dar errado antes de a poeira assentar.
A notícia saiu pela voz de um intermediário. O primeiro-ministro do Paquistão, que atuou como mediador, anunciou no domingo que Washington e Teerã haviam fechado um acordo de paz, com encerramento imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, o Líbano incluído. Minutos depois, Trump confirmou. E, pela primeira vez desde o início do conflito, o outro lado não desmentiu. O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã declarou, pela agência estatal Tasnim, que toda guerra entre as partes cessaria de forma imediata e permanente já naquela noite, e que o bloqueio naval seria suspenso.
A diferença em relação a todas as vezes anteriores está exatamente nesse ponto. Antes, só os Estados Unidos falavam em acordo, e o Irã negava. Agora os dois governos confirmam o mesmo texto e a mesma data. A assinatura formal está marcada para a próxima sexta-feira, dezenove de junho, na Suíça, e deve ser feita de forma eletrônica, com uma rodada de conversas preparatórias ao longo da semana.
O entendimento está num memorando de cerca de catorze páginas, cujos termos vinham sendo costurados havia semanas. Em linhas gerais, os Estados Unidos se comprometem a suspender as sanções sobre o petróleo iraniano, e o Irã, a reabrir o estreito de Ormuz num prazo de até trinta dias. O bloqueio naval americano aos portos iranianos, em vigor desde abril, é encerrado. Logo após o anúncio, Trump autorizou a reabertura da passagem e o fim do bloqueio, escrevendo nas redes que os navios do mundo podiam voltar a navegar.
Há ainda uma ressalva importante no texto iraniano. Segundo o Conselho de Segurança, os compromissos americanos previstos no memorando precisam ser cumpridos antes que as negociações para um acordo final, mais amplo, possam começar. Ou seja, o que foi selado encerra os combates, mas abre uma segunda etapa de conversas, na qual entram as questões mais espinhosas, a começar pelo programa nuclear iraniano.
Para entender por que o anúncio foi recebido com tanta desconfiança, é preciso olhar o caminho até ele. Esta foi uma guerra que piscou. Acendeu e apagou por quatro meses, e essa intermitência talvez tenha sido a parte mais difícil de acompanhar.
Tudo começou em vinte e oito de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques-surpresa contra o Irã em plena rodada de negociações, numa ofensiva que matou diversas autoridades, entre elas o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. A resposta iraniana seguiu uma lógica de alargar o tabuleiro, atingindo bases, embaixadas e infraestrutura de energia pela região. Em abril veio uma primeira trégua de duas semanas, frágil, acompanhada do bloqueio naval e logo violada dos dois lados. Horas depois daquele cessar-fogo, Israel conduziu uma ofensiva sobre o Líbano que matou centenas de pessoas.
E veio a sucessão de anúncios que não se concretizavam. Uma agência financeira contabilizou que, ao longo da guerra, Trump afirmou mais de trinta vezes que um acordo estava perto. A rádio pública americana NPR registrou quatro tentativas de declarar vitória só até meados de abril. O ápice da confusão foi no fim de semana do acordo. Na quinta, Trump anunciou que tudo estava acertado, e o Irã desmentiu. Na sexta, contestou os termos que circulavam na mídia iraniana. No sábado, Teerã negou de novo que assinaria no domingo. Até que, no domingo, a virada finalmente veio, e com confirmação dos dois lados. Cada trégua parecia um fim, e cada madrugada desmentia o anúncio do dia anterior. É contra esse histórico que a notícia de agora precisa ser lida.
O acordo foi fechado, mas ainda não foi assinado, e a história recente recomenda cautela. A própria véspera do anúncio mostrou a fragilidade do arranjo. No domingo, milícias aliadas do Irã no Líbano dispararam contra Israel, que respondeu com ataques a Beirute, e o episódio quase fez o entendimento descarrilar. Trump precisou pedir publicamente que nenhum dos lados revidasse.
Há também uma ausência que pesa. Israel não é parte formal do acordo entre Estados Unidos e Irã, embora suas ações estejam diretamente ligadas ao conflito. O premiê israelense buscava uma reunião com Trump para discutir os termos, sinal de que o front libanês e a posição de Israel seguem como variáveis abertas. Entre o anúncio de domingo e a assinatura de sexta, cabe uma semana inteira, e esta guerra já provou que uma semana é tempo de sobra para a luz voltar a piscar.
Para quem acompanha mercados e energia: o eixo a observar agora é a implementação. Acordo anunciado e barril em queda são uma coisa, Ormuz efetivamente reaberto e sanções de fato suspensas são outra. Vale entender como a geopolítica da energia funciona, e por que o petróleo segue sendo o centro do poder no mundo.
Para quem quer o contexto histórico: este acordo encerra uma guerra, não a rivalidade que a produziu. A inimizade entre Irã e Ocidente tem raízes fundas, do golpe de mil novecentos e cinquenta e três à revolução de setenta e nove. Ler a história da região é o que separa entender de apenas reagir à próxima manchete.
Para quem se sente esmagado pela enxurrada de notícias: a boa é que a fase de alertas a cada hora deve diminuir.
É tentador tratar o anúncio de domingo como ponto final, mas o que existe, por enquanto, é um acordo fechado e confirmado pelos dois lados, com assinatura marcada e uma etapa de implementação pela frente. É muito mais do que houve em qualquer momento dos últimos quatro meses, e ainda assim não é, tecnicamente, o fim.
A diferença é que, desta vez, Washington e Teerã apontam para a mesma data. Depois de uma guerra que viveu acendendo e apagando, talvez seja a primeira vez que a luz dá sinais de querer, enfim, ficar acesa. Saber se ela vai parar de tremer é questão de poucos dias. Vamos acompanhar tudo por aqui.
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